sexta-feira, 19 de novembro de 2010

VELHO ENGENHO

Dentro do nevoeiro do vale mal se entrevêm os despojos do velho engenho morto. A casa está em ruínas e uma erva hostil cresceu, silenciosa, por toda a bagaceira, invadiu os alpendres e assenhoreou-se do chão onde nunca mais pisou o pé humano.
Que fim levaram os antigos moradores? Onde os meninos trêfegos, os mestres, os cambiteiros, os animais e as aves que alertavam as madrugadas?
Tudo parece morto, não há sinal de vida dentro do grande vale onde outrora ecoavam os rumores do trabalho e as alegrias das safras exuberantes.Os próprios caminhos estão ocultos ou se tornaram sendas misteriosas de um mundo perdido. As chuvas os transformaram em barrancos, as formigas, ás suas margens, construíram sossegadamente o seu reino. E á noite, sob as estrelas, as corujas desferem o seu canto soturno e imprimem ao velho engenho um aspecto de câmara ardente.
Entretanto, a terra, em redor, clama por que a fecundem. As árvores, embora maltratadas e esquecidas, guardam no porte a majestade dos dias em que foram belas. Coroando o outeiro, como um penacho real, ergue-se um pau darco de cem anos, que ainda floresce como no tempo de jovem.E tudo isso paira, ali, no exílio, como se fosse um continente ignorado, lembrando a terra depois do dilúvio.
Eis um crime para o qual não há pena. Esse êxodo de ingratos e de emasculados, que arrancaram suas próprias raízes para ir vegetar adiante, como parasitas, merecia um castigo. Eles, os senhores, os meninos que se tornaram velhos, perderam-se nas ruas, passeiam displicentemente pelo asfalto das cidades, dançam e cantam nos clubes. A sua vida parece a dos presidiários que se consolam com o simples passar dos dias e das noites. A diferença é que esses fugitivos sem alma nunca têm remorsos. O velho engenho lá ficou, desmanchando-se pedra por pedra. Os maquinismos foram vendidos ou enferrujam, na sepultura das moitas, enquanto a erva cresce, silenciosa, afogando os alpendres, cobrindo como um sudário implacável, a bagaceira morta.
(BARBOSA,Edgar. Imagens do Tempo,edição da UFRN, 1966.)

BAQUIPE

Rio Baquipe, hoje Rio Ceará Mirim. Denominação indígena. Baquipe significa - rio pequeno.

Um rio que elabora o vazio do tempo. É em sí cansaço, mas entrega-se aos rumos, lento e profundo. Ao saber-se fonte única, sem começo nem fim, trabalha suas auroras no sigilo da noite, e passa aceso pelo vento. Entre canavial e catástrofes sucessivas, flui, torrente remota ou curso hesitante. Ventos imaturos confinam a paisagem e trazem legendas de sol, a morrer nas tardes do vale.E por essas tardes, o rio prossegue, na tortura de ser breve e inteiro, na claridade onde dormem canções.
(NEGREIROS,Sanderson.Como era verde o meu vale,O Poty,22 de fevereiro de 1976.)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A BORDO

Mar e céu. Mar e céu! No convés do navio
Eu contemplava o mar soluçando e bravio.
As ondas majestosas, vinha se espraiavam.
Em rugidos de dor que nunca se acabavam.
Na linha do horizonte o céu se unia ás águas
E tudo tinha um tom de tristeza e de mágoas.
Chamei-o em vão! Em vão beijei-lhe a face fria.
Sempre o mesmo silêncio e a mesma agonia.
Que martírio meu Deus! Que horror! Que desconforto!
Cruel desilusão!Meu pai jazia morto.

(Primeiro poema de Adele de Oliveira aos quinze anos de idade, quando falecia seu pai, viajando de Belém para Natal,sepultado nas ondas do mar).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ELOGIO DA PREGUIÇA

Bendita sejas tu, Preguiça amada,
Que não consentes que eu me ocupe em nada!
Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.
Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.
Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.
Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.
Ó sábios, dai à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!
Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em, na paz, preparar a luta, a guerra!
Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!
Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.
Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas!
Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro!
Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz...
Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira!
Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?
Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?
Queres riquezas, glórias e poder?
Para que, se amanhã tens de morrer?
Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro...
Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?
Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!
Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!
Ó Laura, tu te queixas que eu, farcista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,
E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor.
Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.
Que me não faças mais essa injustiça,
Se ontem não fui te ver, foi por preguiça.
Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir, sonhar.
(ANTUNES,Juvenal. Cismas, 1908)

A MOAGEM

"Mal o dia desponta suavemente
No engenho vai a gente azafamada
A bagaceira alveja de repente
E no alto o bueiro solta a fumarada

No campo o corte avança lentamente
E a "bandeira" no chão vê-se espalhada
Enquanto pelo aterro alegremente
O "cambiteiro" passa em disparada..."

Hoje, tristonhos, vêem-se alguns traumatizados pela usina...
Não mais sentirão o rodar das moendas!
Os apitos das chaminés emudeceram.
Restam bueiros empoeirados...
(ANTUNES,Magdalena. Oiteiro: Memórias de uma Sinhá-moça,2ªed.2003,pag.319)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

PARECE QUE FOI HOJE!

As viagens temporâneas do Dr.Augusto Meira à terra de origem, excitavam a sua imaginação para um conhecimento in loco do seu progresso.
Conta-se que em uma das suas visitas, chegando à Rua da Igreja, encontrou os mesmos buracos, bueiras e profundas valetas, intocadas pela administração pública. Antes já se decepcionara com a imundice da cadeia e a anti-higiene do mercado. Não se conteve e extravasou a veia poética:
-"Nunca vi minha terra assim tão feia.
Pobre Ceará Mirim todo grotado.
O Mercado, mais sujo que a cadeia,
E a cadeia mais suja que o mercado".
(MEIRA,Augusto APUD CAVALCANTI,Inácio. Vultos, Fatos e Saudades, 1985,pag.54)

sábado, 13 de novembro de 2010

UM MONUMENTO A MENOS

O homem está acabando com os últimos resquícios históricos e artísticos das nossas águas, dos nossos vegetais e até do nosso patrimônio arquitetônico, num criminoso menoscabar, num flagrante às coisas santas do passado!
Aqui é a natureza que sofre um golpe de morte; ali é a etnografia que perde um monumento, que vê, impassível e acocorada, através dos seus estaduanos, o desmoronar das suas relíquias augustas!
De um lado, é o homem na sua personificação particular, destruindo aquilo que supõe de sua propriedade; do outro, é o homem, aproveitando a debilidade mental reinante, apropriando-se, indebitamente, não só daquilo que o nosso aborígene pagou com o seu trabalho mas,ainda, daquilo que constitui o marco do seu passado.
(SENNA,Júlio Gomes de. Ceará Mirim: Exemplo Nacional,1974,pags 138-139)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Oh, Cisne se Fosses Fênix

Cisne branco que como rosa és verde
Que de tão verde, tinges o vale.
Que como homem és rio, Nilo.
Que como casa és abandono.

Teu semblante é pálido e melancólico
Teu cenário, tão escuro;
Porque tudo é desordem no escuro da ausência sobre tudo de cores vivas.
Teu tema é silencioso, abandono.

Teus brancos galgos, onde estão?
Acaso te abandonaram teus fies guardiões?
E teus deuses alvejantes? Não os vejo mas acimados em teu platibanda!
Morada dos Deuses,acaso o Olimpo revoltara-se contra vós, e todos abandonaram-te.

E as grades que te protegiam?
Acaso dá corpo aquele maciço descomunal de ferragens retorcidas?
Tuas folhas de janelas, teus almofadados de portas, tuas vidraças estilhaçadas,
Agora tudo se amontoa em um volume colossal.

Não és, mas uma construção; estas repartida, fundida, fragmentada.
Aqui um cômodo, ali outro e acolá um corredor, que já não liga teus cômodos;
Triste sina de lugar que não foi bastante amado.
Parece suplicar, reivindica por devolver-lhes de longe os gestos esquecidos.

Acoberta o quadro o avanço vegetal,
O canavial cumpre seu papel em prol daqueles que o semearam,
Assume a função de cortina vulgar de decência,
Disfarçando a nudez dolorosa de vossa ruína.


Se cerro os olhos e ao passado incorporo,
Encontro-vos em minhas lembranças de visão infantil,
Tão nobre, tão senhorial.
Se desperto, não torno mais a ver-te, estranha morada.

Oh casa se te respeitassem!
Oh rosa se te regassem!
Oh cisne se fosses fênix!

ANTÔNIO AUGUSTO JÚNIOR

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A CIDADE EM MIM

Ceará Mirim, cuja geografia está em nós, quando o sentimos descer silenciosamente pelo vale, estender-se pela planura verde, tomar nos braços o seu velho rio e fluir com ele, como se caísse dos Andes nas desinquietas ondas do mar de Muriú.
Eis o Ceará Mirim que me ficou e que procuro cada vez que o vejo, como quem perdeu alguma coisa e perdeu tudo; como quem tenta voltar sem ter saído; como quem já não encontra as pedras nos seus lugares, que até elas, rudes peregrinas, também se vão, tangidas como folhas endurecidas que o vento leva, sem respeitar nelas nem o pêso nem a idade.
(BARBOSA,Edgar. 1965, Apud MONTEIRO, Francisco. Itinerário Sentimental do Ceará Mirim,1965,pag.06)